quinta-feira, 24 de setembro de 2015
sábado, 7 de março de 2015
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
DIA MUNDIAL DA PAZ.
MENSAGEM
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
XLVIII DIA MUNDIAL DA PAZ
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
XLVIII DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE
JANEIRO DE 2015
JÁ NÃO
ESCRAVOS, MAS IRMÃOS.
1. No início dum novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom
de Deus para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a
todos os povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos
responsáveis das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho
com a minha oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros
sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias
e pelos efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular
para que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas
as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo,
saibamos resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa
humanidade.
Já, na minha mensagem para o 1º Janeiro passado,
fazia notar que «o anseio duma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível
de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos
inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo o homem um ser relacional,
destinado a realizar-se no contexto de relações interpessoais inspiradas pela
justiça e a caridade, é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam
reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia.
Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere
gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas
pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenômeno abominável, que leva a
espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e
dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente,
para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já
não escravos, mas irmãos».
À escuta do projecto de Deus para a humanidade.
2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de
São Paulo a Filémon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher
Onésimo, que antes era escravo do próprio Filémon mas agora tornou-se cristão,
merecendo por isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o Apóstolo
dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas para sempre,
não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo
passou a ser irmão de Filémon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início duma
vida de discipulado em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2
Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar
e alicerce da vida social.
Lemos, no livro do Génesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser
humano como homem e
mulher e abençoou-os para que
crescessem e se multiplicassem: a Adão e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento
da bênção de Deus para ser fecundos e multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel.
Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem,
natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.
Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e
possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidadeexprime também a
multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos e irmãs, todas as
pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as outras, cada qual com a
própria especificidade e todas partilhando a mesma origem, natureza e
dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui a rede de relações
fundamentais para a construção da família humana criada por Deus.
Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Génesis
e o novo nascimento em Cristo – que torna, os crentes,
irmãos e irmãs do «primogénito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade negativa
do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e
deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos
irmãos e irmãs da mesma
família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por
inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato de Abel por Caim
atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua
história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o difícil
dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos
outros».[2]
Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9, 18-27), é a falta de piedade de Cam
para com seu pai, Noé, que impele este a amaldiçoar o filho irreverente e a
abençoar os outros que o tinham honrado, dando assim lugar a uma desigualdade
entre irmãos nascidos do mesmo ventre.
Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento
de Deus, da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da
comunhão e traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as consequências daí
resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição do outro,
maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos fundamentais,
institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade duma conversão
contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na cruz,
confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por Jesus
Cristo» (Rom 5, 20.21).
Ele, o Filho amado (cf. Mt 3, 17), veio para revelar o amor do
Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o Evangelho e acolhe o seu apelo à
conversão, torna-se, para Jesus, «irmão, irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho adoptivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).
No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai
e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade
pessoal, sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus requer que
primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia Pedro no
dia de Pentecostes – e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a
remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam
com a fé e a vida àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1, 15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e
gregos, escravos e homens livres (cf. 1
Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e
estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de
Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre
os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13, 1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).
Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem
Deus «renova todas as coisas» (Ap 21,
5)[3] – é capaz de redimir também as
relações entre os homens, incluindo a relação entre um escravo e o seu senhor,
pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a filiação adoptiva e o
vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos:
«Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o
seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que
ouvi ao meu Pai» (Jo 15,
15).
As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje.
3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas
conhecem o fenómeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história
da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e
regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo
contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida
livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o
próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas
propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo
podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria
qualquer.
Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da
humanidade, a escravatura – delito de lesa humanidade[4] – foi formalmente abolida no mundo. O
direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi
reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável.
Mas, apesar de a comunidade internacional ter adoptado numerosos
acordos para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado
diversas estratégias para combater este fenómeno, ainda hoje milhões de pessoas
– crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e
constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.
Penso em tantos trabalhadores
e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a
nível formal e informal, desde o trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da
indústria manufactureira à mineração, tanto nos países onde a legislação do
trabalho não está conforme às normas e padrões mínimos internacionais, como –
ainda que ilegalmente – naqueles cuja legislação protege o trabalhador.
Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajecto
dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens
ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos deles que, chegados ao
destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo medo e a insegurança,
ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em tantos deles que
diversas circunstâncias sociais, políticas e económicas impelem a passar à
clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na legalidade, aceitam viver e
trabalhar em condições indignas, especialmente quando as legislações nacionais
criam ou permitem uma dependência estrutural do trabalhador migrante em relação
ao dador de trabalho como, por exemplo, condicionando a legalidade da estadia
ao contrato de trabalho... Sim! Penso no «trabalho escravo».
Penso nas pessoas
obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais;
nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer
as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que
tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento.
Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são objecto
de tráfico e comercialização
para remoção de órgãos, para ser recrutados
como soldados, para servir
de pedintes, para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou
paraformas disfarçadas de adopção internacional.
Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em
cativeiro por grupos
terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente
no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles
desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.
Algumas causas profundas da escravatura.
4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da
pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto. Quando o
pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus
semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como
irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objectos. Com a força,
o engano, a coacção física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e
semelhança de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a
propriedade de alguém; é tratada como meio, e não como fim.
Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no
outro –, há outras causas que concorrem para se explicar as formas actuais de
escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no subdesenvolvimento
e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas, se não mesmo
inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de tráfico e
servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de pobreza
extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas mãos das
redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes utilizam
habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e
adolescentes de todos os cantos do mundo.
Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão
dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o tráfico das pessoas humanas
requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa através da corrupção dos intermediários,
de alguns membros das forças da polícia, de outros actores do Estado ou de
variadas instituições, civis e militares. «Isto acontece quando, no centro de
um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana.
Sim, no centro de cada sistema social ou económico, deve estar a pessoa, imagem
de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é
deslocada e chega o deus dinheiro, dá-se esta inversão de valores».[5]
Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências, a criminalidade e o terrorismo.
Há inúmeras pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou
exploradas sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando
tudo o que possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas
últimas, impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo
à custa da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar
naquele círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas
consequências perniciosas.
Um compromisso comum para vencer a escravatura.
5. Quando se observa o fenómeno do comércio de pessoas, do tráfico
ilegal de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão,
fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da
indiferença geral.
Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte,
apraz-me mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas,
especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das
vítimas. Tais institutos actuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela
violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas
presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não
só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus
algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas
também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de
identidade e a violência física. A actividade das congregações religiosas está
articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação
sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de
destino ou de origem.
Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e
perseverança, merece o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o
aplauso, por si só, não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da
pessoa humana. Faz falta também um tríplice empenho a nível institucional:
prevenção, protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis. Além
disso, assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar
os seus objectivos, assim também a acção para vencer este fenómeno requer um
esforço comum e igualmente global por parte dos diferentes actores que compõem
a sociedade.
Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas
legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adopções, a
transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da
exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da
pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam
os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é
vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos
eficazes de controle da correcta aplicação de tais normas, que não deixem
espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel
da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação
para se obter os resultados esperados.
As organizações
intergovernamentais são
chamadas, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar
iniciativas coordenadas para combater as redes transnacionais do crime
organizado que gerem o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos
migrantes. Torna-se necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as
instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade
civil e do mundo empresarial.
Com efeito, as empresas[6] têm o dever não só de garantir aos
seus empregados condições de trabalho dignas e salários adequados, mas também
de vigiar por que não tenham lugar, nas cadeias de distribuição, formas de
servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da responsabilidade social da
empresa, aparece depois a responsabilidade
social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de
que «comprar é sempre um acto moral, para além de económico».[7]
As organizações
da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de sensibilizar e estimular as
consciências sobre os passos necessários para combater e erradicar a cultura da
servidão.
Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das
vítimas do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à
libertação, multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os
diversos actores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além disso, foram organizados alguns
encontros com a finalidade de dar visibilidade ao fenómeno do tráfico de
pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes actores, incluindo
peritos do mundo académico e das organizações internacionais, forças da polícia
dos diferentes países de origem, trânsito e destino dos migrantes, e
representantes dos grupos eclesiais comprometidos em favor das vítimas. Espero
que este empenho continue e se reforce nos próximos anos.
Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a
indiferença.
6. Na sua actividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo
na sociedade»,[9] a Igreja não cessa de se empenhar em
acções de carácter caritativo guiada pela verdade sobre o homem. Ela tem o
dever de mostrar a todos o caminho da conversão, que induz a voltar os olhos
para o próximo, a ver no outro – seja ele quem for – um irmão e uma irmã em
humanidade, a reconhecer a sua dignidade intrínseca na verdade e na liberdade,
como nos ensina a história de Josefina Bakhita, a Santa originária da região do
Darfur, no Sudão. Raptada por traficantes de escravos e vendida a patrões
desalmados desde a idade de nove anos, haveria de tornar-se, depois de
dolorosas vicissitudes, «uma livre filha de Deus» mediante a fé vivida na consagração
religiosa e no serviço aos outros, especialmente aos pequenos e fracos. Esta
Santa, que viveu a cavalo entre os séculos XIX e XX, é também hoje testemunha
exemplar de esperança[10] para as numerosas vítimas da
escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se dedicam à luta contra esta
«ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo».[11]
Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva
missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a
bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto
comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana,
nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de
seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam
razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que,
por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões
económicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de
positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no
dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento,
dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e
não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma
pessoa que tacteia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta
realidade.
Temos de reconhecer que estamos perante um fenómeno mundial que
excede as competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é
preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno. Por
esta razão, lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade
e a quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de
perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se
tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus
irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a
coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o Qual Se torna visível através dos
rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo chama os «meus irmãos mais
pequeninos» (Mt 25,
40.45).
Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu
irmão? (cf. Gen 4, 9-10). A globalização da
indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos,
requer de todos nós que nos façamos artífices duma globalização da
solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los
a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as
novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.
Vaticano,
8 de Dezembro de 2014.
FRANCISCUS
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/papa-francesco_20141208_messaggio-xlviii-giornata-mondiale-pace-2015.html
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
SARTRE
RESUMO
A concepção de
liberdade em Sartre tem o ser humano como objeto principal de seu estudo. Para
o existencialismo é a existência que vem antes da essência, nisto consiste
dizer que o homem existe e depois é que surge a sua essência. No primeiro
capítulo, se trata da filosofia
acerca do existencialismo, pois o ser humano é lançado na existência para si e
por conta de si. No segundo, é apresentada, a existência do ser na filosofia de
Sartre, e sendo um material de estudo de si mesmo, firmando-se por meio de sua
liberdade de escolha. No último capítulo é a questão da liberdade do ser humano
no pensamento sartriano, mas a liberdade, não dá o direito de viver sem
responsabilidade, pois viver livre implica em assumir tudo que faço. Só há uma
forma para fugir da responsabilidade é por recorrer à pratica da má-fé, mas a
liberdade fica comprometida, porém o homem tem por natureza a liberdade, uma
vez bem cultivada e administrada com responsabilidade, ele construirá bem a sua
essência. Por fim, resaltamos a importância da liberdade e da responsabilidade,
pois estes dois elementos são indispensáveis, na vida do ser humano, como uma
análise, ou seja, é o acordar da consciência do homem, este estágio que ele se
descobre, sem ter a necessidade de se esconder na má-fé.
Palavras-Chave:
Existência. Homem. Liberdade. Má-Fé. Responsabilidade.
RESUMÉ
La conception sarteienne de liberté a
comme principal but d’ éstudes l’ être humain. Pour l’ existentialisme o’ estl’
existence que vient avant l’ homme, o’ est–à-dire, d’ abord l’ homme existe et
seulement aprés vient l’ essence. Au premier chapitre on aborde la philosophie
de l’ existentialisme, parce que l’ êstre humain est jeté dans l’ existence
pour lui-même et à cause de lui-même. Le deuxième chapetre présente l’ existence
de l’ être dans la philosophie de
Sartre. Étant moyen de la liberté de choix. Au dernier chapitre on réfléchit
sur la question de la liberté de l’ être humain dans la pensée sartriene, mais
Il s’ agit d’ une liberté qui ne donne pas le droit de vivre sans
responsabilitá. Guisque vivre librement implique s’ assumer tout ce que jê
fais. Il n’y a qu’ une manîere d’ échapper à sa responsabilitá, c’ est le
recours à la pratique de la mauvaise fois; mais en ce cãs la liberté devienr
compromise.gourtant l’ homme a pour mature la liberté. Si l’ on la cultive bien
et on l’ admnistre avec responsabilité, l’ homme construira bien son essence. Enfin on souligue l’
importance de la liberté er de la responsabilité Dan la vie de l’ être humain,
com me une analyse, c’ est-à-dire, le réveiller dede la conscience de l’ homme,
quand Il se découvre à soi-même sans besoin de se cacher em la mauvaise foi.
Mots – Clé: Existence. Homme. Mauvaise
foi. Responsabilité.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
MONOGRAFIA ( RESUMO DE APRESENTAÇÃO )
A
LIBERDADE DO SER HUMANO EM SARTRE
Por
meio deste trabalho monográfico abordamos “A liberdade do ser humano em
Sartre”. Tendo como sustentáculo o terceiro tópico “Liberdade e
responsabilidade” do primeiro capítulo na obra O ser e o nada. E como objetivo geral: Compreender o significado de
liberdade do ser humano no pensamento de Jean-Paul Sartre. Tem a pretensão de
responder a seguinte problemática: é possível o ser humano compreender-se livre sem
responsabilidade de acordo com Sartre? Portanto será
trabalhado em três capítulos: No primeiro refletimos a existência do homem na
filosofia de Sartre. Em seguida, evidenciamos a existência do ser na filofia de
Sartre. Por fim, no terceiro capítulo, trouxemos como reflexão a liberdade do
ser humano no pensamento sartreano.
A presente pesquisa deseja cooperar com a filosofia
no que se refere ao estabelecimento de uma reflexão do que realmente venha a ser a liberdade em
Sartre, utilizando como base a linha de pensamento do próprio filósofo. Segundo
ele, a liberdade está intrinsecamente ligada à responsabilidade; assim, cada
indivíduo assume as consequências das suas escolhas. O sujeito, desesperado e
angustiado, busca soluções em tudo, a ponto de depositar a responsabilidade em
outro ser, a fim de que esse assuma as consequências dos seus atos e escolhas. O
autor nos lembra que o homem foge de sua responsabilidade, agindo de “má fé”
consigo mesmo, isso porque é mais fácil atribuir suas culpas a outro, e assim
desfrutar de uma liberdade desmedida.
O
ser humano, segundo o autor, está condenado a ser livre, porém com
responsabilidade, a qual consiste no ato de escolher o que lhe dá prazer e
alegria, sendo que a mesma o possibilita agir com prudência em suas escolhas. Para
Sartre, esta prática não anula a liberdade. A seguir tratamos do surgimento
do existencialismo.
O filósofo Kierkegaard é o pioneiro no
estudo da existência, porém o seu pensamento não tive grande importância quando
foi apresentado. Todavia, foi depois da sua morte que o mesmo passou a ter
relevância para os filósofos do século XX, chegando ao ponto de lhe ser atribuído
o título de pai do existencialismo, por ter abordado, o que virá a ser o
embasamento da corrente filosófica existencialista.
A
Primeira Guerra Mundial que envolveu a Europa, foram momentos complicados para
a população que durante todo aquele período, vivenciou, conflitos envolvendo
vários setores da sociedade, tais como: financeiro, político, econômico, moral e
principalmente no âmbito acadêmico. A falta de sentido em viver em meio a
tantos destroços, levaram os sobreviventes a se depararem com uma crise
existencial, que fora provocado por meio da guerra, que se tornou um momento
histórico, surge como consequência uma nova corrente filosófica: o
existencialismo.
A
grande maioria dos jovens adotou a atitude existencialista. O existencialismo
por intermédio das mídias foi relacionado aos movimentos de modificação de
conduta e de costumes. De início tem como ponto de partida assinalar motivações
para que o ser humano tenha sentido de viver, de acordo com a linha do
pensamento podemos dizer que o termo designa de forma compreensiva, uma
filosofia não sistemática, metódica. Essa corrente filosófica do
existencialismo prioriza o real, o si, o para si, o particular, as
generalidades vagas.
O
existencialismo cristão é formado por estes filósofos: Karl Jaspers e Gabriel
Marcel que tiveram um entusiasmo pelo mistério da humanidade; uma convicção de
que existe um para além do conhecimento que nos é possível atingir. Tais
filósofos insistem em dizer que Deus é indispensável na vida do homem, na
construção de sua essência.
E
os pensadores ateus são: Heidegger e Sartre. Neles encontramos a eliminação de
qualquer tipo ou forma de conhecimento com relação a Deus. Mas sem deixar de
lado o pensamento de que a “existência precede a essência”, assim afirma
Sartre.
A
existência do ser na filosofia de Sartre
A
fenomenologia foi mencionada por alguns pensadores, no decorrer da
história filosófica, no entanto é possível apresentar como descrição de que,
podemos definir o fenômeno como “aquilo que aparece ou se manifesta.” Desta
forma, fizemos feita uma abordagem da fenomenologia sob a marca do
filósofo alemão Edmund Husserl que apresenta a fenomenologia como um método de
verificação que tem o propósito de apreender o fenômeno,
isto
é, o surgimento das coisas à consciência, de uma maneira rígida.
O ser se manifesta, tanto na sua essência quanto na
sua aparência e, não passa de ser bem interligada dessas manifestações. Ao
conseguir reduzir os dualismos às suas manifestações. As aparições estão
ligadas por uma razão que não depende do meu bel-prazer. Segundo Sartre,
dualismo, ato e potência, apenas confundem a análise do fenômeno.
O existente, com efeito, não pode se reduzir a uma série finita de
manifestações, porque cada uma delas é uma relação com um sujeito em perpétua
mudança.
Pode-se
afirmar que Sartre se atém na análise do fenômeno, o que vem a ser o propósito
maior da fenomenologia husserliana. O que o pensador Frances entende por prova
ontológica reside nos seguintes termos: “a consciência nasce trazida por um
ser que não é ela. A consciência não pode fazer com que haja ser, mas, porque
há ser, a consciência funda-se, enquanto consciência de si e do ser.” (LIMA,
2009, p. 18). Sartre critica Husserl pelo fato do pensador alemão ter ficado
preso ao cogito cartesiano, mais
especificamente à descrição da aparência das coisas à consciência.
Ao
desvelar o fenômeno do ser, Sartre o analisou como aquilo que aparece em si
mesmo. A partir deste estudo, o filósofo passou a interrogar pelo ser mesmo
desse aparecer. Não participando com as soluções realista no que se refere à
problemática do ser do fenômeno, ele o ponderou como aquilo mesmo que se mostra
à consciência, empregar para isso o conceito de intencionalidade de Husserl,
embora fazendo algumas advertências ao filósofo alemão. Assim, "partimos
da pura aparência e chegamos ao pleno ser." (SARTRE, 1997, p. 35). É
quando Sartre irá apresentar dois tipos de seres hauridos de sua análise
existencial: o ser Em-si e o ser Para-si. O filósofo irá
discorrer sobre esses dois tipos de seres mostrando os modos próprios como eles
se dão.
Em
determinar o ser do fenômeno como sendo o ser tal qual ele nos aparece, Sartre
o chamará de ser Em-si (En-soi). Não convêm dar tais atributos:
atividade, passividade, possibilidade, temporalidade, potência, pois estes só
podem advir através da consciência. O conceito de Em-si adotado por Sartre será
a base de sustentação para o filósofo apresentar o Para-si que vem a diferir
drasticamente do Em-si. O filósofo francês lança mão da noção husserliana de
consciência, que define como sendo alguma coisa. Pois, é intencional, isto é,
está sempre voltada para um objeto que dela difere.
Pois,
o autor Frances defende que a atitude interrogativa não deve ser considerada
como que restrita, isto é, à relação entre homens.
É
como se o nada tendesse constantemente no sentido de nele se estacionar. Uma
vez que a consciência intencional é desprovida de conteúdos, só lhe resta
sustentar o seu ser no nada. Por só poder existir como consciência de algo e
por não ser o fundamento de si mesmo, tende a cair constantemente para o ser
Em-si. Desse modo nos detemos na liberdade do ser humano no pensamento
sartriano.
Este
capítulo explora a liberdade do homem. O Para-si exerce o seu ser livre através
das escolhas que tem de fazer, a respeito de si, ao longo da existência. Por
sua vez, Sartre enfatiza que o ato de escolher traz consigo uma experiência
bastante singular: a angústia. Para Sartre, ela se dá pelo fato de o
Para-si ter de escolher seu modo de ser, no entanto, o fundamento de seu
próprio ser: Tenho que assumir constantemente meu modo de ser, sem possuir uma
base sólida sobre a qual eu possa repousar.
Presumivelmente, visto mais adiante, o Para-si
deve responder pelo seu modo de ser. A angústia da decisão sempre vem à
tona quando tomamos consciência de nossa inteira liberdade. O filósofo francês
nos apresenta um tipo especial de conduta que adotamos para desviar da angústia
que corrói o Para-si.
A
liberdade reside no homem na questão de ter que escolher constantemente, o
sentido que ele dará a si mesmo e ao mundo à sua volta. Contudo, para fugir do
peso da responsabilidade, o homem se refugiar geralmente na má-fé.
Mais um tipo particular de conduta de má-fé.
Por hora, o que importa aqui é que o Para-si não pode assumir o seu ser como se
fosse um Em-si. Pois se assim o fosse, não poderíamos nem sequer falar de
liberdade e transcendência. Seguindo os passos do pensador francês ao longo de
sua análise ontológica em torno da liberdade.
Sartre
até aqui nos conduzir à sua noção de responsabilidade. O Para-si deve
escolher seu modo de ser. Para realizar tal pensamento, Sartre argumenta que o
homem deve assumir inteiramente a autoria de seu projeto existencial.
A presente pesquisa faz
algumas reflexões, sugestivas importantes para o ser humano perante a
sociedade. Mesmo que Sartre enfatize que “cada um é responsável por si e pelos
seus atos”, pois uma vez vista desta forma contribuímos para uma vivencia
melhor com o mundo que está ao entorno, tentamos dar prioridade a problemática
da liberdade que o homem almeja, mas como vimos a liberdade já termos desde a
nossa origem, porém Sartre condena o uso da má-fé. Esta pesquisa mostra que a
liberdade deve estar sempre alicerçada na responsabilidade. A liberdade já é
uma característica de cada ser humano.
A
presente pesquisa trouxe algumas reflexões que pode contribuir para a filosofia
no que se refere ao estabelecimento de uma profunda reflexão do que realmente
venha a ser a liberdade do ser humano nas perspectivas sartreana, utilizando
como meio de compreensão o pensamento do próprio filósofo. Acreditamos, pois,
que esta seja a grande incumbência e contribuição deste trabalho monográfico
para a sociedade e para a filosofia.
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