quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

DIA MUNDIAL DA PAZ.

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 
XLVIII DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2015

JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS.



1. No início dum novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom de Deus para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a todos os povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho com a minha oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias e pelos efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular para que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo, saibamos resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa humanidade.
Já, na minha mensagem para o 1º Janeiro passado, fazia notar que «o anseio duma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo o homem um ser relacional, destinado a realizar-se no contexto de relações interpessoais inspiradas pela justiça e a caridade, é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia. Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenômeno abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos».
À escuta do projecto de Deus para a humanidade.
2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de São Paulo a Filémon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher Onésimo, que antes era escravo do próprio Filémon mas agora tornou-se cristão, merecendo por isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o Apóstolo dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo passou a ser irmão de Filémon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início duma vida de discipulado em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2 Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social.
Lemos, no livro do Génesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser humano como homem e mulher e abençoou-os para que crescessem e se multiplicassem: a Adão e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento da bênção de Deus para ser fecundos e multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel. Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem, natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.
Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidadeexprime também a multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos e irmãs, todas as pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as outras, cada qual com a própria especificidade e todas partilhando a mesma origem, natureza e dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui a rede de relações fundamentais para a construção da família humana criada por Deus.
Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Génesis e o novo nascimento em Cristo – que torna, os crentes, irmãos e irmãs do «primogénito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade negativa do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros».[2]
Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9, 18-27), é a falta de piedade de Cam para com seu pai, Noé, que impele este a amaldiçoar o filho irreverente e a abençoar os outros que o tinham honrado, dando assim lugar a uma desigualdade entre irmãos nascidos do mesmo ventre.
Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento de Deus, da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da comunhão e traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as consequências daí resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição do outro, maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos fundamentais, institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade duma conversão contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na cruz, confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por Jesus Cristo» (Rom 5, 20.21). Ele, o Filho amado (cf. Mt 3, 17), veio para revelar o amor do Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o Evangelho e acolhe o seu apelo à conversão, torna-se, para Jesus, «irmão, irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho adoptivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).
No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal, sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus requer que primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia Pedro no dia de Pentecostes – e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam com a fé e a vida àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1, 15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e gregos, escravos e homens livres (cf. 1 Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13, 1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).
Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem Deus «renova todas as coisas» (Ap 21, 5)[3] – é capaz de redimir também as relações entre os homens, incluindo a relação entre um escravo e o seu senhor, pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a filiação adoptiva e o vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15).
As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje.
3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas conhecem o fenómeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria qualquer.
Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa humanidade[4] – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável.
Mas, apesar de a comunidade internacional ter adoptado numerosos acordos para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado diversas estratégias para combater este fenómeno, ainda hoje milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.
Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal, desde o trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da indústria manufactureira à mineração, tanto nos países onde a legislação do trabalho não está conforme às normas e padrões mínimos internacionais, como – ainda que ilegalmente – naqueles cuja legislação protege o trabalhador.
Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajecto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos deles que, chegados ao destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo medo e a insegurança, ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em tantos deles que diversas circunstâncias sociais, políticas e económicas impelem a passar à clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na legalidade, aceitam viver e trabalhar em condições indignas, especialmente quando as legislações nacionais criam ou permitem uma dependência estrutural do trabalhador migrante em relação ao dador de trabalho como, por exemplo, condicionando a legalidade da estadia ao contrato de trabalho... Sim! Penso no «trabalho escravo».
Penso nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento.
Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para ser recrutados como soldados, para servir de pedintes, para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou paraformas disfarçadas de adopção internacional.
Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.
Algumas causas profundas da escravatura.
4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto. Quando o pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objectos. Com a força, o engano, a coacção física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e semelhança de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a propriedade de alguém; é tratada como meio, e não como fim.
Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no outro –, há outras causas que concorrem para se explicar as formas actuais de escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no subdesenvolvimento e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas, se não mesmo inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de tráfico e servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de pobreza extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas mãos das redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes utilizam habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e adolescentes de todos os cantos do mundo.
Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o tráfico das pessoas humanas requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa através da corrupção dos intermediários, de alguns membros das forças da polícia, de outros actores do Estado ou de variadas instituições, civis e militares. «Isto acontece quando, no centro de um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou económico, deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro, dá-se esta inversão de valores».[5]
Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências, a criminalidade e o terrorismo. Há inúmeras pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou exploradas sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando tudo o que possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas últimas, impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo à custa da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar naquele círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas consequências perniciosas.
Um compromisso comum para vencer a escravatura.
5. Quando se observa o fenómeno do comércio de pessoas, do tráfico ilegal de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão, fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da indiferença geral.
Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte, apraz-me mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas, especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das vítimas. Tais institutos actuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de identidade e a violência física. A actividade das congregações religiosas está articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de destino ou de origem.
Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e perseverança, merece o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o aplauso, por si só, não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da pessoa humana. Faz falta também um tríplice empenho a nível institucional: prevenção, protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis. Além disso, assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar os seus objectivos, assim também a acção para vencer este fenómeno requer um esforço comum e igualmente global por parte dos diferentes actores que compõem a sociedade.
Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adopções, a transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos eficazes de controle da correcta aplicação de tais normas, que não deixem espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação para se obter os resultados esperados.
As organizações intergovernamentais são chamadas, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar iniciativas coordenadas para combater as redes transnacionais do crime organizado que gerem o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos migrantes. Torna-se necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do mundo empresarial.
Com efeito, as empresas[6] têm o dever não só de garantir aos seus empregados condições de trabalho dignas e salários adequados, mas também de vigiar por que não tenham lugar, nas cadeias de distribuição, formas de servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da responsabilidade social da empresa, aparece depois a responsabilidade social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de que «comprar é sempre um acto moral, para além de económico».[7]
As organizações da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de sensibilizar e estimular as consciências sobre os passos necessários para combater e erradicar a cultura da servidão.
Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das vítimas do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à libertação, multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os diversos actores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além disso, foram organizados alguns encontros com a finalidade de dar visibilidade ao fenómeno do tráfico de pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes actores, incluindo peritos do mundo académico e das organizações internacionais, forças da polícia dos diferentes países de origem, trânsito e destino dos migrantes, e representantes dos grupos eclesiais comprometidos em favor das vítimas. Espero que este empenho continue e se reforce nos próximos anos.
Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a indiferença.
6. Na sua actividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade»,[9] a Igreja não cessa de se empenhar em acções de carácter caritativo guiada pela verdade sobre o homem. Ela tem o dever de mostrar a todos o caminho da conversão, que induz a voltar os olhos para o próximo, a ver no outro – seja ele quem for – um irmão e uma irmã em humanidade, a reconhecer a sua dignidade intrínseca na verdade e na liberdade, como nos ensina a história de Josefina Bakhita, a Santa originária da região do Darfur, no Sudão. Raptada por traficantes de escravos e vendida a patrões desalmados desde a idade de nove anos, haveria de tornar-se, depois de dolorosas vicissitudes, «uma livre filha de Deus» mediante a fé vivida na consagração religiosa e no serviço aos outros, especialmente aos pequenos e fracos. Esta Santa, que viveu a cavalo entre os séculos XIX e XX, é também hoje testemunha exemplar de esperança[10] para as numerosas vítimas da escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se dedicam à luta contra esta «ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo».[11]
Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que, por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões económicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento, dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma pessoa que tacteia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta realidade.
Temos de reconhecer que estamos perante um fenómeno mundial que excede as competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno. Por esta razão, lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade e a quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o Qual Se torna visível através dos rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo chama os «meus irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45).
Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu irmão? (cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos, requer de todos nós que nos façamos artífices duma globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.
Vaticano, 8 de Dezembro de 2014.
FRANCISCUS


http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/papa-francesco_20141208_messaggio-xlviii-giornata-mondiale-pace-2015.html

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

SARTRE

RESUMO
A concepção de liberdade em Sartre tem o ser humano como objeto principal de seu estudo. Para o existencialismo é a existência que vem antes da essência, nisto consiste dizer que o homem existe e depois é que surge a sua essência. No primeiro capítulo, se trata da filosofia acerca do existencialismo, pois o ser humano é lançado na existência para si e por conta de si. No segundo, é apresentada, a existência do ser na filosofia de Sartre, e sendo um material de estudo de si mesmo, firmando-se por meio de sua liberdade de escolha. No último capítulo é a questão da liberdade do ser humano no pensamento sartriano, mas a liberdade, não dá o direito de viver sem responsabilidade, pois viver livre implica em assumir tudo que faço. Só há uma forma para fugir da responsabilidade é por recorrer à pratica da má-fé, mas a liberdade fica comprometida, porém o homem tem por natureza a liberdade, uma vez bem cultivada e administrada com responsabilidade, ele construirá bem a sua essência. Por fim, resaltamos a importância da liberdade e da responsabilidade, pois estes dois elementos são indispensáveis, na vida do ser humano, como uma análise, ou seja, é o acordar da consciência do homem, este estágio que ele se descobre, sem ter a necessidade de se esconder na má-fé.
Palavras-Chave: Existência. Homem. Liberdade. Má-Fé. Responsabilidade.  

RESUMÉ
La conception sarteienne de liberté a comme principal but d’ éstudes l’ être humain. Pour l’ existentialisme o’ estl’ existence que vient avant l’ homme, o’ est–à-dire, d’ abord l’ homme existe et seulement aprés vient l’ essence. Au premier chapitre on aborde la philosophie de l’ existentialisme, parce que l’ êstre humain est jeté dans l’ existence pour lui-même et à cause de lui-même. Le deuxième chapetre présente l’ existence de l’ être dans la  philosophie de Sartre. Étant moyen de la liberté de choix. Au dernier chapitre on réfléchit sur la question de la liberté de l’ être humain dans la pensée sartriene, mais Il s’ agit d’ une liberté qui ne donne pas le droit de vivre sans responsabilitá. Guisque vivre librement implique s’ assumer tout ce que jê fais. Il n’y a qu’ une manîere d’ échapper à sa responsabilitá, c’ est le recours à la pratique de la mauvaise fois; mais en ce cãs la liberté devienr compromise.gourtant l’ homme a pour mature la liberté. Si l’ on la cultive bien et on l’ admnistre avec responsabilité,  l’ homme construira  bien son essence. Enfin on souligue l’ importance de la liberté er de la responsabilité Dan la vie de l’ être humain, com me une analyse, c’ est-à-dire, le réveiller dede la conscience de l’ homme, quand Il se découvre à soi-même sans besoin de se cacher em la mauvaise foi.
Mots – Clé: Existence. Homme. Mauvaise foi. Responsabilité.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

MONOGRAFIA ( RESUMO DE APRESENTAÇÃO )



A LIBERDADE DO SER HUMANO EM SARTRE 
Por meio deste trabalho monográfico abordamos “A liberdade do ser humano em Sartre”. Tendo como sustentáculo o terceiro tópico “Liberdade e responsabilidade” do primeiro capítulo na obra O ser e o nada. E como objetivo geral: Compreender o significado de liberdade do ser humano no pensamento de Jean-Paul Sartre. Tem a pretensão de responder a seguinte problemática: é possível o ser humano compreender-se livre sem responsabilidade de acordo com Sartre? Portanto será trabalhado em três capítulos: No primeiro refletimos a existência do homem na filosofia de Sartre. Em seguida, evidenciamos a existência do ser na filofia de Sartre. Por fim, no terceiro capítulo, trouxemos como reflexão a liberdade do ser humano no pensamento sartreano.
A presente pesquisa deseja cooperar com a filosofia no que se refere ao estabelecimento de uma reflexão do que realmente venha a ser a liberdade em Sartre, utilizando como base a linha de pensamento do próprio filósofo. Segundo ele, a liberdade está intrinsecamente ligada à responsabilidade; assim, cada indivíduo assume as consequências das suas escolhas. O sujeito, desesperado e angustiado, busca soluções em tudo, a ponto de depositar a responsabilidade em outro ser, a fim de que esse assuma as consequências dos seus atos e escolhas. O autor nos lembra que o homem foge de sua responsabilidade, agindo de “má fé” consigo mesmo, isso porque é mais fácil atribuir suas culpas a outro, e assim desfrutar de uma liberdade desmedida.
O ser humano, segundo o autor, está condenado a ser livre, porém com responsabilidade, a qual consiste no ato de escolher o que lhe dá prazer e alegria, sendo que a mesma o possibilita agir com prudência em suas escolhas. Para Sartre, esta prática não anula a liberdade. A seguir tratamos do surgimento do existencialismo.
        O filósofo Kierkegaard é o pioneiro no estudo da existência, porém o seu pensamento não tive grande importância quando foi apresentado. Todavia, foi depois da sua morte que o mesmo passou a ter relevância para os filósofos do século XX, chegando ao ponto de lhe ser atribuído o título de pai do existencialismo, por ter abordado, o que virá a ser o embasamento da corrente filosófica existencialista.
            A Primeira Guerra Mundial que envolveu a Europa, foram momentos complicados para a população que durante todo aquele período, vivenciou, conflitos envolvendo vários setores da sociedade, tais como: financeiro, político, econômico, moral e principalmente no âmbito acadêmico. A falta de sentido em viver em meio a tantos destroços, levaram os sobreviventes a se depararem com uma crise existencial, que fora provocado por meio da guerra, que se tornou um momento histórico, surge como consequência uma nova corrente filosófica: o existencialismo.
A grande maioria dos jovens adotou a atitude existencialista. O existencialismo por intermédio das mídias foi relacionado aos movimentos de modificação de conduta e de costumes. De início tem como ponto de partida assinalar motivações para que o ser humano tenha sentido de viver, de acordo com a linha do pensamento podemos dizer que o termo designa de forma compreensiva, uma filosofia não sistemática, metódica. Essa corrente filosófica do existencialismo prioriza o real, o si, o para si, o particular, as generalidades vagas.
O existencialismo cristão é formado por estes filósofos: Karl Jaspers e Gabriel Marcel que tiveram um entusiasmo pelo mistério da humanidade; uma convicção de que existe um para além do conhecimento que nos é possível atingir. Tais filósofos insistem em dizer que Deus é indispensável na vida do homem, na construção de sua essência.
E os pensadores ateus são: Heidegger e Sartre. Neles encontramos a eliminação de qualquer tipo ou forma de conhecimento com relação a Deus. Mas sem deixar de lado o pensamento de que a “existência precede a essência”, assim afirma Sartre.
A existência do ser na filosofia de Sartre
A fenomenologia foi mencionada por alguns pensadores, no decorrer da história filosófica, no entanto é possível apresentar como descrição de que, podemos definir o fenômeno como “aquilo que aparece ou se manifesta.” Desta forma, fizemos feita uma abordagem da fenomenologia sob a marca do filósofo alemão Edmund Husserl que apresenta a fenomenologia como um método de verificação que tem o propósito de apreender o fenômeno, isto é, o surgimento das coisas à consciência, de uma maneira rígida.
O ser se manifesta, tanto na sua essência quanto na sua aparência e, não passa de ser bem interligada dessas manifestações. Ao conseguir reduzir os dualismos às suas manifestações. As aparições estão ligadas por uma razão que não depende do meu bel-prazer. Segundo Sartre, dualismo, ato e potência, apenas confundem a análise do fenômeno. O existente, com efeito, não pode se reduzir a uma série finita de manifestações, porque cada uma delas é uma relação com um sujeito em perpétua mudança.
Pode-se afirmar que Sartre se atém na análise do fenômeno, o que vem a ser o propósito maior da fenomenologia husserliana. O que o pensador Frances entende por prova ontológica reside nos seguintes termos: “a consciência nasce trazida por um ser que não é ela. A consciência não pode fazer com que haja ser, mas, porque há ser, a consciência funda-se, enquanto consciência de si e do ser.” (LIMA, 2009, p. 18). Sartre critica Husserl pelo fato do pensador alemão ter ficado preso ao cogito cartesiano, mais especificamente à descrição da aparência das coisas à consciência.
Ao desvelar o fenômeno do ser, Sartre o analisou como aquilo que aparece em si mesmo. A partir deste estudo, o filósofo passou a interrogar pelo ser mesmo desse aparecer. Não participando com as soluções realista no que se refere à problemática do ser do fenômeno, ele o ponderou como aquilo mesmo que se mostra à consciência, empregar para isso o conceito de intencionalidade de Husserl, embora fazendo algumas advertências ao filósofo alemão. Assim, "partimos da pura aparência e chegamos ao pleno ser." (SARTRE, 1997, p. 35). É quando Sartre irá apresentar dois tipos de seres hauridos de sua análise existencial: o ser Em-si e o ser Para-si. O filósofo irá discorrer sobre esses dois tipos de seres mostrando os modos próprios como eles se dão.
Em determinar o ser do fenômeno como sendo o ser tal qual ele nos aparece, Sartre o chamará de ser Em-si (En-soi). Não convêm dar tais atributos: atividade, passividade, possibilidade, temporalidade, potência, pois estes só podem advir através da consciência. O conceito de Em-si adotado por Sartre será a base de sustentação para o filósofo apresentar o Para-si que vem a diferir drasticamente do Em-si. O filósofo francês lança mão da noção husserliana de consciência, que define como sendo alguma coisa. Pois, é intencional, isto é, está sempre voltada para um objeto que dela difere. Pois, o autor Frances defende que a atitude interrogativa não deve ser considerada como que restrita, isto é, à relação entre homens.
É como se o nada tendesse constantemente no sentido de nele se estacionar. Uma vez que a consciência intencional é desprovida de conteúdos, só lhe resta sustentar o seu ser no nada. Por só poder existir como consciência de algo e por não ser o fundamento de si mesmo, tende a cair constantemente para o ser Em-si. Desse modo nos detemos na liberdade do ser humano no pensamento sartriano.
Este capítulo explora a liberdade do homem. O Para-si exerce o seu ser livre através das escolhas que tem de fazer, a respeito de si, ao longo da existência. Por sua vez, Sartre enfatiza que o ato de escolher traz consigo uma experiência bastante singular: a angústia. Para Sartre, ela se dá pelo fato de o Para-si ter de escolher seu modo de ser, no entanto, o fundamento de seu próprio ser: Tenho que assumir constantemente meu modo de ser, sem possuir uma base sólida sobre a qual eu possa repousar.
 Presumivelmente, visto mais adiante, o Para-si deve responder pelo seu modo de ser. A angústia da decisão sempre vem à tona quando tomamos consciência de nossa inteira liberdade. O filósofo francês nos apresenta um tipo especial de conduta que adotamos para desviar da angústia que corrói o Para-si.
A liberdade reside no homem na questão de ter que escolher constantemente, o sentido que ele dará a si mesmo e ao mundo à sua volta. Contudo, para fugir do peso da responsabilidade, o homem se refugiar geralmente na má-fé.
 Mais um tipo particular de conduta de má-fé. Por hora, o que importa aqui é que o Para-si não pode assumir o seu ser como se fosse um Em-si. Pois se assim o fosse, não poderíamos nem sequer falar de liberdade e transcendência. Seguindo os passos do pensador francês ao longo de sua análise ontológica em torno da liberdade.
Sartre até aqui nos conduzir à sua noção de responsabilidade. O Para-si deve escolher seu modo de ser. Para realizar tal pensamento, Sartre argumenta que o homem deve assumir inteiramente a autoria de seu projeto existencial.
A presente pesquisa faz algumas reflexões, sugestivas importantes para o ser humano perante a sociedade. Mesmo que Sartre enfatize que “cada um é responsável por si e pelos seus atos”, pois uma vez vista desta forma contribuímos para uma vivencia melhor com o mundo que está ao entorno, tentamos dar prioridade a problemática da liberdade que o homem almeja, mas como vimos a liberdade já termos desde a nossa origem, porém Sartre condena o uso da má-fé. Esta pesquisa mostra que a liberdade deve estar sempre alicerçada na responsabilidade. A liberdade já é uma característica de cada ser humano.
A presente pesquisa trouxe algumas reflexões que pode contribuir para a filosofia no que se refere ao estabelecimento de uma profunda reflexão do que realmente venha a ser a liberdade do ser humano nas perspectivas sartreana, utilizando como meio de compreensão o pensamento do próprio filósofo. Acreditamos, pois, que esta seja a grande incumbência e contribuição deste trabalho monográfico para a sociedade e para a filosofia.